Somos todos imortais. Teoricamente imortais, claro. Hipocritamente
imortais. Porque nunca consideramos a morte como uma possibilidade cotidiana,
feito perder a hora no trabalho ou cortar-se fazendo a barba, por exemplo. Na
nossa cabeça, a morte não acontece como pode acontecer de eu discar um número
telefônico e, ao invés de alguém atender, dar sinal de ocupado. A morte,
fantasticamente, deveria ser precedida de certo ‘clima’, certa ‘preparação’.
Certa ‘grandeza’. Deve ser por isso que fico (ficamos todos, acho) tão abalado
quando, sem nenhuma preparação, ela acontece de repente. E então o espanto e o
desamparo, a incompreensão também, invadem a suposta ordem inabalável do
arrumado (e por isso mesmo ‘eterno’) cotidiano. A morte de alguém conhecido
e/ou amado estupra essa precária arrumação, essa falsa eternidade. A morte e o
amor. Porque o amor, como a morte, também existe – e da mesma forma,
dissimulada. Por trás, inaparente. Mas tão poderoso que, da mesma forma que a
morte – pois o amor também é uma espécie de morte (a morte da solidão, a morte
do ego trancado, indivisível, furiosa e egoisticamente incomunicável) – nos
desarma. O acontecer do amor e da morte desmascaram nossa patética fragilidade.
